Relatório de Estágio: Introdução



Os cursos de formação de professores contam, em suas composições curriculares, com uma disciplina cara à formação dos futuros e novos profissionais da educação, ou, como é o caso do autor deste blog, futuros profissionais do ensino de línguas. O curso de licenciatura em Letras - Língua Inglesa e suas Literaturas da Universidade Federal do Tocantins, campus de Porto Nacional, traz em seu bojo curricular a disciplina de estágio supervisionado, dividida em quatro módulos. O curso de licenciatura em Letras oferece, a partir do 5º período, a disciplina de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado (I, II, III e IV). “A disciplina de estágio supervisionado é apresentada como componente curricular da licenciatura em Letras [...]. Configura-se como um espaço para a experimentação das abordagens existentes de ensino da língua inglesa” (SILVA, FAJARDO-TURBIN, 2017). As experimentações são diversas e adversas, isso porque o espaço escolar é dinâmico em sua formatação e exige do professor em formação posturas epistemológicas e pedagógicas coerentes e que forneçam bons ideais para uma prática de estágio e ensino produtiva e que cause impactos positivos nos estagiários. A disciplina de estágio supervisionado tem como principal objetivo possibilitar aos professores em formação o contato com as práticas docentes, unindo ensino e pesquisa.


Neste blog, os relatos irão partir de um estagiário matriculado na disciplina Prática de Ensino e Estágio Supervisionado II. Os escritos aqui desenvolvidos partem dos principais objetivos e finalidades do estágio II: “O Estágio II para os cursos de Português e Inglês tem como meta a observação e participação nas atividades de ensino, observação de aulas, regência e oficinas pedagógicas oferecidas à escola. A carga horária do estágio supervisionado II [...] será de 105 hora/aula distribuídas em 30 horas teóricas e 75 de Estágio na Escola-Campo, desenvolvendo/ as seguintes atividades: 08 horas de observação, 10 horas de auxílio ao professor e participação nas atividades escolares; 16 horas de regência, 10 horas para desenvolvimento das oficinas pedagógicas, 12 horas destinadas à análise do material coletado, 15 escrita do memorial”. Essas metas são apresentadas aos estagiários logo no início da disciplina, assim, os licenciados terão maior entendimento sobre o objetivo a ser atingido em suas práticas. Uma vez que as metas são bem claras e objetivas. A partir disso, o autor deste blog observou oito aulas e participou das atividades escolares no Ensino Fundamental, nas turmas de 7º ano. Além disso, realizou a regência de 16 horas, sendo 12 horas em oficinas e 4 horas de regência em sala de aula; reconheceu a totalidade do espaço escolar; examinou o Projeto Político Pedagógico (PPP) da escola; auxiliou o professor-colaborador; entrevistou professores, alunos e gestores. 


Antes da realização das atividades descritas anteriormente foi necessário planejamentos, debates e discussões na universidade para que o processo de estágio não sofresse surpresas desagradáveis. Como dito anteriormente, a regência de 16 horas pode ser detalhada da seguinte maneira: 12 horas foram em oficinas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), do qual o estagiário-autor deste blog faz parte desde o 3º período do curso de Letras - Língua Inglesa e suas Literaturas. Essas oficinas tinham como objetivo principal tratar da diversidade linguística e do multilinguismo a partir do gênero textual histórias em quadrinhos (HQ’s) e provocou nos alunos participantes da oficina a nociva constatação da hegemonia de algumas línguas em detrimento de outras. Para isso, foi realizado um trabalho com a língua Akwe Xerente, Iorubá, língua Portuguesa e Língua Inglesa. Já as regências (4 no total) assumiram um outro modelo, uma atividade proposta pelo professor-colaborador e planejada pelo estagiário. Ambas atividades foram bem sucedidas.


A gênese do projeto de ação do estagiário parte dos estudos críticos da linguagem (DIAS, COROA, LIMA, 2018; OLIVEIRA E PAIVA, 2014; LIMA, 2009; LEFFA, 2008; RAJAGOPALAN, 2007; MOITA LOPES, 2006; e outros) e de epistemes transgressivas que apontam para um novo modelo de educação e práticas de ensino, que não o modelo cartesiano e linear advindos de uma educação tradicional e, em termos de Paulo Freire, bancária. A postura epistemológica assumida pelo estagiário, tanto nas oficinas pedagógicas do Pibid como nas regências em sala de aula partem da consciência de que é preciso uma educação linguística que “enfatiza a necessidade de se instituir pesquisas e práticas pedagógicas de linguagem voltadas à superação de dicotomias, que objetivem integrar teoria e prática e que busquem dissolver a superação entre sujeito e vida social” (DIAS, COROA, LIMA, 2018). A prática de estágio permite um confronto sadio com a realidade justamente posta e provoca ao estagiário que se quer crítico e ativo em suas práticas, uma postura epistemológica emancipadora e atenta às mudanças do mundo contemporâneo.

A escolha desses pressupostos teóricos pelo estagiário revela muito dos seus intentos. Isso porque, para o estagiário-autor deste blog não há como dissociar a vida política da educação. A educação é uma atividade bem localizada em termos políticos, ou seja, ela é por natureza, uma atividade ideológica. Essas inquietações levaram esse estagiário a se posicionar epistemologicamente antes de adentrar o espaço escolar. Isso desenvolve a maturidade docente, que será política e emancipatória se for localizada e bem situada em epistemes que apontam para uma mudança social.


Essa introdução é parte dos escritos que virão em seguida, todos eles sobre as atividades desenvolvidas na escola-campo, juntamente com reflexões pontuais sobre essas práticas. Para tanto, os posts estarão organizados da seguinte maneira: introdução; parte I (descrição das atividades) que será desmembrada em tópicos, tais como a estrutura do ambiente escolar, análise do Projeto Político Pedagógico, desenvolvimento e apresentação das sequências didáticas e planos de aula, o desempenho da escola em alguns indicadores de qualidade de ensino, como IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e reflexões sobre as observações realizadas; parte II, escritos reflexivos sobre a experiência do estágio, em apenas um post serão listados os maiores desafios e como se deu o processo de estágio durante esse período. Por fim, enfatiza-se a importância de uma prática político-pedagógica compromissada com uma verdadeira mudança dos paradigmas mantenedores do status-quo. É com esse objetivo que os escritos e reflexões apontadas neste blog são e serão tecidas.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BRASIL. Presidência da República / Casa Civil. Lei 9.394/96. Brasília, 20 de dezembro de 1996. Disponível em < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm>

UFT. Manual das Práticas de Ensino em Língua Portuguesa e Língua Inglesa e Respectivas Literaturas. In. PPC Letras – Inglês. Porto Nacional: UFT, 2009.

SILVA, W. R.; FAJARDO-TURBIN, A. E. Como fazer relatório de Estágio Supervisionado: Formação de professores na Licenciatura. Brasília: Liber Livro, 2012.

DIAS, J. de F., COROAM. L. M. S., & LIMAS. C. de. (2018). Criar, resistir e transgredir: pedagogia crítica de projetos e práticas de insurgências na educação e nos estudos da linguagem. Cadernos De Linguagem E Sociedade, 19(3), 29-48. https://doi.org/10.26512/les.v19i3.18628

OLIVEIRA E PAIVA, Vera Lúcia Menezes. Aquisição de segunda língua. São Paulo: Parábola Editorial, 2014.

LEFFA, Vilson J. Malhação na sala de aula: o uso do exercício no ensino de línguas. Revista Brasileira de Linguística Aplicada, v. 8, n. 1, p. 139-158, 2008.

RAJAGOPALAN, Kanavillil. Por uma linguística crítica. Língua & Letras, v. 8, n. 14, 2007.

MOITA LOPES, Luiz Paulo. Por uma lingüística aplicada indisciplinar. Parábola, 2006.

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNC C_30out_site.pdf. Acesso em: 27 de novembro de 2019.

______. Constituição Federal de 1988, de 5 de outubro de 1988. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/c onstituição.htm . Acesso em 27 de novembro de 2019.

______. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. Brasília: MEC/SEB, 2013. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/julho-2013pdf/13677-diretrizes-educacao-basica-2013-pdf/file Acesso em: 27 de novembro de 2019.

______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/introducao .pdf.Acesso em: 27 de novembro de 2019.

Comentários

  1. Muito bem, Iuri. Uma introdução muito digna do trabalho crítico-reflexivo proposto. Apenas me confundiu um trecho "provocou nos alunos participantes da oficina a nociva constatação da hegemonia de algumas línguas em detrimento de outras". Você não pretende dizer que a hegemonia é nociva? Aqui parece que constatar a hegemonia é que é nocivo. No mais, cobriu bem sobre as características do estágio supervisionado e deu boa "palhinha" do que virá.

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